Viagem na irrealidade cotidiana – Critica sobre o livro de Umberto Eco

Viagem na irrealidade cotidiana

Critica sobre o livro de Umberto Eco.

O falso absoluto.

Umberto Eco faz uma critica ferrenha ao falso, a copia. Ele descreve intensamente museus e lugares, principalmente nos Estados Unidos, que servem especificamente como estoques de copias “autenticas” de obras primas que estão em museus da Europa. Comenta ainda a construção de um castelo na Califórnia que foi importado da Europa, cada tijolo numerado e reconstruído em seu local atual e preenchido com obras de arte reais e copias não para o bem da arte mas para o prestigio que esta proporciona.
Eco ainda critica a Disney, seja ela a Disneyworld ou a Disneylandia, falando sobre museus de cera, aonde os autômatos são tão reais que as pessoas se perdem no meio delas, e os cenários ecológicos repletos de animais, que não são de verdade, pois se fossem não estariam ali, ainda nesse contexto, Eco contrapõe o zoológico e a Disney, pois no zoológico as pessoas se contagiam com a idéia de proteção que este proporciona e que apesar de muitas vezes os visitantes não conseguirem ver os animais, pois estes estão dormido ou se escondendo, preferem não ver os animais de verdade do que saber que aquele crocodilo na Disney não passa de um robô, que cumpre um papel definido muitas vezes.
O conceito de real thing, ou seja, sempre o real por mais que não seja, ou seja uma copia autenticada nos mínimos detalhes que sem uma plaqueta de cobre embaixo explicitando que a obra é uma copia, não seria possível saber se é o original ou não, ele ainda descreve uma estatua de cobre grega que não é, obvio, a original, mas sim uma copia da autentica “copia” romana, então se você não pode ter o original então que tenha a copia, mas se nem esta é possível pois o original se perdeu no tempo, então tenha a copia da copia da relíquia, sendo que esta primeira copia já atingiu o status de relíquia pois o original já se perdeu.
Ainda tem mais, alias a própria palavra “mais” já é um conceito que merece ser trabalhado, more, que é um jeito de dizer “ainda” sob a forma de mais, não se diz “o programa continua daqui a pouco” e sim more to come. Não se diz me da ainda um pouco de café ou outro café mas sim more coffe. o cigarro não é mais comprido, é more. E isso serve para argumentar a copia, a copia perfeita do oval room, da casa branca e as reconstruções de praças aztecas onde o objeto verdadeiro e a estatua de cera do azteca se fundem em um continuum que o visitante não é estimulado a decifrar.
É a fortress of solitude, para quem não sabe é a casa do super homem no polo norte, é aonde ele guarda suas memórias perfeitamente enclausuradas em cristais, copias fieis de fatos e pessoas que conheceu e encontrou, o museu de recordações, e esse modelo se aproxima da realidade no momento que você percebe que o museu de cera, que serve para guardar o conhecimento humano, ainda que por réplicas fidelíssimas, não passam de fortalezas de solidão.
E como não comparar tudo isso com um recurso usado para entreter e como ciência também, a holografia, quer dizer, você olha de um angulo e vê uma imagem mas quando vira a foto, vê tudo que esta escondido atras, sob nova perspectiva, mas quando olha de cima vê que é simplesmente um papel que pelo uso de lasers foi capaz de reter uma imagem tridimensional e coloca-la em uma mídia bidimensional, e o que os museus de cera fazem quando colocam a ultima ceia de michelangelo em forma de cera, e o espectador pode ver as costas de Jesus, e seu perfil. A obra perde seu valor, apesar da tridimensionalidade adicionar um conjunto completamente novo de signos, empobrece a obra, pois o espectador perde o poder de abstrair ele mesmo essa tridimensionalidade, é não para por ai, existe uma versão de cera da monalisa, quer dizer, esta replica em cera mata todo o trabalho de da Vinci, o escorso, o sorriso, todas as reflexões e analises da obra já feitas vão por água a baixo quando esta é colocada para fora do quadro. Isto tudo são as wunderkammer, ou câmaras das maravilhas, difundidas na civilização barroca alemã.

Que você possa viver numa época interessante.

Já diziam os chineses quando queriam maldizer alguém. Esse capitulo trata da época em que vivemos, sob uma outra perspectiva, não a do falso absoluto, mas sim do neofeudalismo.
Qualquer dia desses, em qualquer lugar do mundo onde haja um engarrafamento de carros, existirá um que será lembrado como o maior de todos, e que por coincidência, nesse engarrafamento estarão operadores da torre de controle de um grande aeroporto, e que esses não conseguirão chegar ao seu destino, e que os operários que lá estão, vencidos pelo cansaço, errarão e passarão as informações erradas para as aeronaves em vôo, e que duas dessas colidirão e cairão sobre a rede elétrica que alimenta a mesma cidade aonde o engarrafamento não permitiu os operadores de chegarem ao seu destino, e haverá um blackout imenso que durará dias, e que por coincidência, isso ocorrerá em uma cidade aonde neva e estará nevando exatamente nesse dia toneladas de neve, impedindo o reparo da rede elétrica, e o blackout que durará dias, durará semanas, e as pessoas para se aquecerem começarão a queimar tudo que for possível, e começaram incêndios intermináveis, que os bombeiros não poderão apagar, pois não poderão chegar aos locais dos mesmos, e as pessoas começaram a ficar sem suprimentos e portanto, saquearão as lojas e supermercados, e seus donos para se defenderem empregarão um numero jamais visto de armas de fogo gerando uma violência interminável que resultara em mortes por assassinato, frio, fome, e no final, depois de semanas de caos, quando a neve derreter, a rede elétrica tiver sido reparada, haverão tantos corpos jogados aos milhares nos acostamentos e calçadas que uma nova peste que se nutriu desse enorme contingente de mortos emergira matando mais uma porção da população. A vida política fragmentada em milícias mercenárias deixará de existir dando lugar a subsistemas autonomos do poder central e uma nova administração de justiça autônoma se encarregará de escolher seus culpados. A nova Idade Média já esta ai…
São as grandes corporações, e seus vassalos, os estados, que vez em quando impõe uma imagem de estado absoluto, mas todos sabemos que estes são apenas empregados das grandes corporações multinacionais que ditam os destinos do mundo.

Os heróis verdadeiros são sempre arrastados pelas circunstancias.

Nunca escolhem, pois se pudessem escolheriam não ser heróis. Nesse capitulo, Umberto Eco ensaia sobre a religião, o coração do estado, seus governantes e os terroristas.
Eco fala que a religião, e no livro exemplifica bem usando experiências próprias que teve em contato com o candomblé em São Paulo e no Rio de Janeiro que essa religião afro-brasileira esta mudando de mãos, pais de santo louros e de olhos azuis já são vistos conduzindo trabalhos, Eco ainda fala sobre o respeito dessa religião pelas outras. O pai de santo de São Paulo foi o que expressou isso melhor quando disse: “estamos fazendo somente política da boa vizinhança” que dizer, eles reconhecem Jesus e o diabo mas não trabalham com eles. Eco se mostra muito curioso pelas cerimonias e de qual orixá ele é filho, tanto na visão do pai de santo de São Paulo com para o do Rio, Eco é filho de Oxalá, uma revelação que o deixou um tanto frustrado pois ele não sentiu confiança no pai de santo carioca.
O coração do estado, seus governantes e os terroristas. Aqui Eco exprime uma visão tremendamente critica, ligada com o conceito do segundo capitulo, ou seja, o neofeudalismo, quando diz que todos são parte do mesmo, quer dizer, eco diz que a ação dos terroristas, por mais que cause danos a uma companhia aérea ou a uma fabrica, provoca lucros para os jornais e jornalistas, quer dizer é um toma lá da cá em que os governantes simplesmente controlam em prol das multinacionais, alias a política planetária agora é controlada por essas mesmas industrias que lucram em cima de atos terroristas, e o que fazer com aqueles que morrem nesse contexto, vitimas de assassinatos, são casualidades de guerra. Mas e a punição para aqueles que cometem esses crimes, deve ser igual, então o que fazer com um meliante que rapta seu filho e abusa sexualmente dele, então você tem o direito de abusar dele também? E se tivesse, tiraria proveito dele, quer dizer, transformar o ser humano criminoso em meio de comunicação, então ele perde a qualidade de humano. E você, caso se utiliza-se do seu direito de devolver na mesma moeda, seria menos humano também, pois também seria transformado em meio da comunicação, então aquela velha historia de direitos humanos, mas primeiro os mais humanos valeria em qualquer ocasião. E isso se aplica ao aborto também, afinal quem de nos pode dizer se um aglomerado de células pode ser chamado ser humano ou não. Se esta vida que se forma já esta ligada as regras da sociedade.

Quem controla o país?

Hoje em dia, quem controla os meios de comunicação, o poder imprimido nas mídias de massa é enorme, até ai todos sabemos disso, mas aonde está a novidade? Nesses últimos tempos temos visto a proliferação da TV a cabo, a neotv, que não vem para substituir a tevê comum, mas sim atualizar o discurso desta de uma maneira regionalista. A TV comum é muito abrangente em nível territorial mas pouco profunda nos assuntos das comunidades, e ela tenta disfarçar que ela leva esse conhecimento até o telespectador, mas generalizando para todos os meios de comunicação de massa, quando você tem um veiculo que atinge uma grande população de diferentes níveis sociais e diferentes níveis de instrução, o veiculo perde sua capacidade de ter opinião própria e passa a ter a opinião da massa, já a neotv não tem este problema pois ela se foca em uma região e se aprofunda em um publico somente, tornando assim a ter opinião própria.
Eco ainda fala nesse capitulo da massificação do esporte e da banalização com que este é vendido, apesar de Eco não ter a menor afinidade com a pelota como ele mesmo fala, ele faz uma critica muito mordaz mas pertinente quando a comercialização, principalmente do futebol, mas não deixa os jogos olímpicos de lado, como ele mesmo fala, é mais fácil filmar um corredor fazendo aquilo que faz de melhor do que colocar atores para correr, pois nesse caso o convencimento da massa seria mínimo, Eco ainda faz uma critica a própria figura do atleta, ele o considera um instrumento, um meio para o patrocinador fazer dinheiro, “o atleta é um monstro, é a gueixa de pé apertado e atrofiado destinado a instrumentalização total.”

Um cent.

Eco discorre no final do capitulo sobre a falsificação e o consenso, pegando o gancho que ele mesmo deixou no final do primeiro capitulo. O sistema telefônico americano é muito interessante, Eco conta uma pequena historia de quando conversando com um colega em uma universidade da Califórnia este pede emprestado 10 cent., Eco empresta o dinheiro para que seu colega ligue para Roma, é isso ai, ROMA. Então alguns minutos depois seu colega volta com a resposta que buscara e os 10 cents. de volta. Como? As multinacionais americanas (pelo menos são as citadas) tem um código telefônico onde essas ligações são debitadas diretamente em suas contas, mas isso não é a parte interessante, o que nos interessa é o fato das multinacionais perceberem este roubo e ficarem imóveis perante o mesmo, alguns milhares de dólares a mais e ninguém sai perdendo, sabe porque? Porque custaria muito mais procurar os fraudadores, incrível não? E não Itália que o xerox de um livro chega a custar o dobro do livro, mas se você tirar em cem pessoas o perco cai 4 vezes. Então as editoras ao invés de vender o livro por um preço, o vendem pelo dobro, sabendo que somente as bibliotecas o compraram e que o resto será xerocado, diminuindo assim os custos de produção e distribuição! E o caso que mais me espantou, nos Estados Unidos, durante uma época as pessoas quando pagavam suas contas telefônicas com cheque, colocavam um cent. a mais, ninguém pode ser incriminado por pagar a mais, mas as companhias telefônicas são obrigadas a devolver o dinheiro, e o custo é muito alto para imprimir alguns milhares de cheques de um cent. para a devolução, as companhias foram para a TV implorar para que os consumidores parassem com esta brincadeira. Quanto poder a massa tem e não sabe se comunicar, porque não é dona dos meios de comunicação.

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