prosa.poesia-NARRATIVA: Os sete pecados capitais

prosa.poesia -NARRATIVA: Os sete pecados capitais,Por Wilson Bueno

Cochichávamos pelos cantos, tentávamos driblar a vigilância do avarento homem e espichávamos o pescoço para, ao menos, quem sabe, alcançarmos ver o objeto em detalhes, pois nem sequer havíamos conseguido distinguir direito do que, a rigor, se tratava.

Interessantíssimo foi quando, exaustos em nossa curiosidade, nos retiramos da sala, e um de nós, não sabemos agora quem, registrou, preciso, a hora em que ele, o avarento homem, dono absoluto do objeto, fatiando-o sem pressa, devorou, pedaço a pedaço, a sua refulgente textura dourada.

E a boca do avarento homem, não contem a ninguém, ficou, assim brilhando na sala feito ele tivesse lambuzado os lábios com a tinta fosforescente de um escaravelho de ouro.
A Gula

Compulsiva e esfaimada, como era de sua natureza, desde antes de se constituir uma falha, a Gula queria saber, de modo não mais guloso que o de costume, por que a Mentira não fôra incluída entre os pecados capitais.

Mas a Gula, aquela tarde, tanto se empanturrou, ao longo do dia, de cremes, panquecas e goiabas, para escândalo dos esquálidos jejuadores da Floresta, que, ao ser perguntada o que fizera de seu dia, mentiu que não fizera nada -estava de regime.

E quanto mais constatava que mentir não era pecado, ao menos capital, mais comia com uma verdade além que gorda, plena de bocas, gargantas e acepipes.
A Inveja

A Inveja perguntava aos duendes da noite sobre os atavismos da espécie, principalmente depois que os duendes da noite foram destituídos de sua condição de pequenos anjos noturnos pelas leis canônicas que regem os pecados, o tempo e os demônios.

Descrentes das mutáveis leis dos grandes deuses, os duendes pareceram-nos doces aquela manhã e riram de si e de sua própria pança. A Inveja queria saber, e o tempo todo se perguntava, sobre os atavismos da espécie.

Sabem como?

Com inveja, com muita inveja das espécies sem atavismos e que vivem à margem da História, órfãs do passado e também órfãs do futuro.

Ah, como cintilavam, estrelas baldias, as espécies sem atavismos, num abandono que a inveja decididamente não tinha.
A Ira

Decidimos enjaular o raivoso em uma urna de vidro. Como batia-se muito contra o cristal, nos ocorreu que, a se comportar sempre assim, poderíamos exibi-lo a preços módicos, de cidade em cidade, em praças públicas ou teatros fechados, e angariar com isso algum trocado.

Tarefa, achamos, derrotada por sua própria natureza, pois o raivoso sempre arranjava um jeito de fazer a jaula de vidro a cacos.

E o que era pior: apoplético, nessa hora, empenhava-se em enxovalhar-nos, bem a nós os que lhe providenciamos a jaula de vidro, preocupados que, fora dela, ele pudesse vir a se machucar seriamente.
A Luxúria

Num remoto harém dos contos das mil e uma noites, o poeta El Rachid Al-Saad foi assassinado de forma até hoje misteriosa.

Uns dizem que, pasmo de êxtase ante a beleza nua da mais bela virgem do Reino, tombou vencido; outros porque, usuário de ópio, fumara um pouco além da conta e acabara caindo da cama, inerte; e outros ainda a debitar a sua morte súbita à hora em que, do orgasmo, conhecera um gozo além, muito além do orgasmo. E que logo as Bruxas nomearam de Luxúria e passaram a coibir sua prática, jogando sobre os amantes água fervente.
O Orgulho

O rabino se chamava Jacob Siegelman e a sua maior vaidade, segundo ele mesmo expressava, batendo às vezes no peito, era a de não ter vaidade de coisa alguma. E, assim, todos os Sábados passeava pela sinagoga a sua humildade -pobre e esfarrapada, quase servil.

Humildade? Isto até o dia em que se fez necessária a demonstração de tão alta virtude. Reunida para os ofícios religiosos do Sábado, a comunidade resolveu elegê-lo chefe de distrito, uma espécie de prefeito, justo por sua apregoada honradez. Mas, claro, cargo assim tão honorífico e cuja maior característica era a ausência de remuneração, o rabino Siegelman não aceitou. Insistiram e ele teimou em não aceitar.

E, quando perguntado por que não acatava a decisão da maioria que o desejava chefe de distrito, respondeu, de modo cândido, que uma vez empossado no cargo, teria outro motivo para demonstrar a todos, de modo ainda mais esforçado, a sua humildade essencial. A mais santa e a mais exaltada humildade do mundo, a crer nas palavras com que dizia isso, não cabendo em si de tanta soberba.

E todos então compreenderam que o rabino Jacob Siegelman de humilde não tinha nada.
A Preguiça

Nessa história de preguiçosos, o mais interessante não são os preguiçosos, mormente do sexo masculino, mas uma preguiçosa ou para ser mais exato -uma deusa preguiçosa.

Vivia tão desmobilizada de si e do seu séquito, a deusa de que falamos, que, toda vez que recebia os intermediários entre o Céu e a Terra, os recebia com sono, o pescoço ao de leve inclinado para a esquerda, em cochilos rápidos e espaçados.

E foram tantos anos assim que, convenhamos, não há pescoço que agüente, ainda mais em sendo de uma deusa há quase três séculos a cabeça sonolenta inclinada para a esquerda, o queixo a encostar no ombro. Lindos os ombros da deusa, um esbanjar de beleza o seu rosto, e sobretudo o nariz, por onde ressonava árdua e extensamente.

Isto até o dia em que os semideuses a retiraram do trono de audiências, só uma estátua amorfa, comida pela gangrena dos dias e enregelada na fixa imagem da deusa que sempre fôra -de torto pescoço e o corpo meio pendente de lado.
(Publicado em 7/4/2007)

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros títulos, do livro de fábulas “Cachorros do Céu” (ed. Planeta), que esteve entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de 2006.

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